terça-feira, 29 de novembro de 2011

Entre a fonte do estrondo e seus olhos

Gentil Barreira, 2010


Todo Sentido


Minha caçula tem olhos de matiz inusual. Sua mãe diz que são olhos de jabuticaba. Mas não são – apesar da sonoridade da palavra reter algo deles. Estão mais para olhos claro-acastanhados que se graduam quando postos à luz. São olhos de mel. Olhos de âmbar.
O que de mais próximo tive da cor de seus olhos, em termos de objeto, foi o breu. Quer dizer, aquela resina cristalizada, semi-transparente, odorífera, que dá vontade de morder, mas que na verdade se passa nas cerdas do arco do violino.
Outro dia levei-a a passear até a Pracinha do Artesanato.
Pressinto que é sua praça preferida, embora a primeira vez que ela mencionou ter ido à Pracinha da Dois Mil, com a Comadre Dinda, foi de mover o coração o modo como pronunciou o nome. E eu não sabia que se chamava assim aquela praça, que, de resto, não fica na Dois Mil – e o que convenhamos é muito mais saudável a uma praça do que, digamos, se chamar General Tibúrcio.
Uma vez na Praça do Artesanato, se faz manhã, ela gosta de correr atrás das lavandeiras, aos gritos de: “Lavandeira, Lavandeira!”. Ou, se é noite, molhar o pé na pequena fonte luminosa. Qualquer seja o relógio, gosta de apostar corrida com o pai para ver quem chega primeiro ao vagão de trem que há por lá, galgando por uma passarela cujas placas de metal vibram inteiras sob nossas passadas, risos e certa narração nem tão fastidiosa quanto as da Fórmula-1 .
Verdade que, no início, deixava descaradamente que ela ganhasse. E pressinto que, hoje, nem tanto.
Burlas minhas à parte, ela sabe criar seu riso. Belisca pipocas, empadinhas. Gosta de cajuína e de água de coco. E de brincar com outras crianças, desde que isso siga uma espécie de rito-piloto-automático. Agora, se um adulto lhe dirige a palavra, ela logo detecta o cara-pálida, refugia-se num amuamento  de  indígena língua-travada.
Dia desses, admirou-se bastante de ver duas crianças idênticas. Mas não da atenção que os pais dos gêmeos lhe dedicaram. 
Brinca nos aparelhos de fisioterapia, desce no escorrega, que é íngreme além da conta, e mede um pouco os cachorros e gatos por Faísca e Valencinha – o dachshund que foi de casa, mas acabou indo parar na casa da cozinheira; e a branca, fellin(i)amente gorda e ronronante gata da avó, que tem os dois olhos de diferentes cores.
Entre nossa casa e a praça há quatro quarteirões que ela já reclamou menos de ter de caminhar, apesar de menor.
Hoje protesta um pouco, se não vamos de carro. E isso apenas indica o quanto, desde a barriga da mãe, acostumamos nossas crianças a só andar de carro para cima e baixo.
Mas, então, àquela manhã e perfazendo o penúltimo quarteirão antes de chegar à praça, fomos colhidos por um grande estrondo à nossa direita. Passávamos bem defronte ao casarão de certa família que deu as cartas por décadas na política de Camocim, mais a oeste e norte, no litoral. Eu podia ver o que acontecia. Ela, não. Um muro e tapumes havia entre a fonte do estrondo e seus olhos.
E o que acontecia era uma retroescavadeira golpeando com fúria as paredes do que costumava ser, aí nos idos dos 70 e 80, o Centro de Fisioterapia . A máquina agia com presteza. E a cada golpe uma vasta porção de parede vinha abaixo: concreto, ferro retorcido, muita poeira.
Ergui minha filha, que pôs seus olhos castanhos claros, fixos e arregalados, acima do muro, na inusitada cena - para ela, então e totalmente inédita.
Na cabine fosca, o vulto do operador da máquina, um ás da demolição. Deixava o bulldozer em só uma das esteiras, apoiando-se no guindaste contra paredes, e depois tombar  sobre os tijolos partidos e  caliça acumulada: a máquina a dançar em suas mãos com desenvoltura. Espécie de Mozart da arte de demolir.
Mas ela não achou muita graça dessas destrezas. Ficou olhando. Sondando a cena. Admirada, de início. Mas depois, amedrontada pela violência, a fealdade da coisa. E exigiu que eu a levasse para longe. E acabou associando a “grande máquina destruidora” – como a chamei – ao Lobo Mau e ao Bicho Papão.
Faz todo sentido.


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segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Cercada por brutamontes e bugres

Joan Miró, Pintura, 1925


Queria Porque Queria

Dia desses de graduação, ela queria porque queria que Inocência, a do romance de Taunay¹, fosse uma ativista do feminismo em pleno século XIX, nos cafundós do Mato Grosso, cercada por brutamontes e bugres. 
Era querer porque querer demais e em desconhecimento de causa. O que faltou notar: ao seu modo, Inocência foi transgressora. Na estreita margem de transgressão possível a uma mulher naqueles tempo e local: bulir com regras de casamento arranjado, ter um caso com forasteiro.
Só caiu a ficha, quando, alguns anos depois, já curada da adolescite - mas não ainda do fetiche das curadorias - começou a trabalhar no jornal. E viu que o buraco era abissalmente mais embaixo do que supunha sua vã filosofia de menina revoltada. E que, aliás, muito do que ela julgava ser filosofia, na graduação, agora não era mais do que vilosofia.
Uma teoria vã e vil. Escrita por homens. Para homens.

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¹Alfredo d'Escragnolle Taunay, o mesmo que Gilberto Freyre, em seu clássico desbocamento, disse ser “uma moça”, para sublinhar o refinamento de sua educação e a contenção na expressão de seus sentimentos.  E inclusive em Inocência, o romance, reconhecidamente um reflexo de certa viagem de Taunay por um Brasil Central e consideravelmente mais remoto à época.

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sábado, 26 de novembro de 2011

Quem tem assim o verão dentro de casa: Eugénio de Andrade

Juan Miró

Último Poema

É Natal, nunca estive tão só.
Nem sequer neva como nos versos
do Pessoa ou nos bosques
da Nova Inglaterra.
Deixo os olhos correr
entre o fulgor dos cravos
e os diospiros ardendo na sombra.
Quem tem assim o verão
dentro de casa
não devia queixar-se de estar só,
não devia.


Eugénio de Andrade

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Em momentos de vacilação, a atenção do simples



Adilson Andrade, Praça São Francisco, em São Cristóvão, Sergipe


O Senhor Simples

A diferença entre Bach e os outros mestres é, de fato, simples. Enquanto nos outros se encontra momentos de vacilação, dispersão ou mera exibição de destreza, Bach está o tempo inteiro a dizer: “Deus é minha rocha, minha fortaleza, meu argumento”. Até mesmo nos instantes descontraídos, alegres. E mesmo aí há uma espécie de atenção generosa e inclusiva - e no entanto simples, austera. O uso de tercinas como a tradução de alegria é próximo da perfeição: como no Brandeburguês Nº3 ou no trecho final da orquestração para a Cantata "Herz und Mund und Tat und Leben"[ “Coração e Boca e Ação e Vida”] na postagem abaixo (“Jesus bleibet meine Freude”).¹
Só isso já seria o suficiente para descrevê-lo? Mas não basta. 
Ele é a síntese de uma era. 
Está entre o melhor dos outros com ele se assemelhar. E está na constante dele se assemelhar ao melhor dos outros. Ou ir além. Essa simplicidade segue no limiar entre disciplina e encanto, esforço e inspiração. Portar o encanto junto com o ensinamento. E os outros em si, como insígnia de memória. Algo que muitos perdem ao longo da vida, curta como seja.
De outro modo, a gente ouve as raízes da música no Ocidente -- arte tão mais tensa e brilhante que sua correspondente Oriental -- e constata que ela, por igual, é toda construída em cima de uma espiritualidade que, posteriormente, se perdeu. Os mantras orientais são bonitos, pacíficos. Mas como casa às vezes não abrigam o suficiente. E a música de Bach, então, é uma casa feito (c)oração. Abre espaço, abriga. Resume a delícia e o pesar de nascer, ser e estar no Ocidente do Mundo. 
(Ou no Ocidente da Galáxia? Do Universo?)
Não. Mas ainda não é bem assim. Não pode ser assim, superlativa. 
E é como?  
É, na verdade, como atravessar um pátio em São Cristóvão, ao cair da tarde, em meio aqueles cacos irremissíveis de barroco, que chegaram faz tempo do outro lado do mar; e contemplar a esperança por paisagens que não vemos:

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¹Ou para ainda quem não se convenceu que a peça está plena da calma felicidade tão tipicamente bachiana -- que Villa Lobos fez questão de abrasileirar -- aí segue uma inusual versão, que guarda, a despeito de apropriá-la para uma outra linguagem, tanto dessa serenidade original:
http://www.youtube.com/watch?v=GpGTt-tULyo&feature=related



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domingo, 20 de novembro de 2011

Alguma música para o final de Ano e Natal

Andrei Tarkovsky, Andrei Rublev, 1966

Nove Sempre Novidades

Antonio Vivaldi – Concerto em Sol Menor para Flauta, Oboé e Fagote (numa versão cheia de incidentes - e por isso deliciosamente mais próxima da vida):
http://www.youtube.com/watch?v=OQBnqaMpr-0
Essa pequena peça de câmara é definitivamente uma favorita.

Domenico Scarlatti  - Perto de qualquer peça para cravo.
Georg Philipp Telemann – Concerto in D:

Dietrich Buxtehude – Cantata: “Ich habe lust abzusheiden” --  há algo de incessantemente protestante e frio e, ainda assim, universal (ou seja, católico) em Buxtehude:
http://www.youtube.com/watch?v=92ewCbXLS-Q

Johann Pachelbel – Canon in D –  tema dos mais conhecidos do repertório pré-clássico, pré-rococó. E, no entanto, é um congresso de águas. (Ou seja, começa f(r)io, termina rio):
http://www.youtube.com/watch?v=1XO-KXCGplo
Quem não sente que essa veio do coração não o tem. (Mas há também muita matemática e simetria). Uma por uma, as três vozes dos  violinos saem do novelo, tecem pequenas contidas maravilhas sobrepondo-se às oito notas contínuas do baixo. A versão acima, mais "sinfônica", é conduzida por Karajan.

Georg Friedrich Händel – “For unto us a Child is Born” (do Oratório O Messias) – um pouco pomposo demais da conta mas reaviva belamente as palavras de Isaías para os ouvidos de Sua Majestade e nossos:

Arcangelo Corelli – Concerto de Natal – (em especial o começo do 1º movimento (Vivace), os Adágios intercalados ao centro, e a belíssima Pastorale, que são pura doutrina e generosidade cristãs postas em música por esse dândi italiano do seicentos).
Há um bom resumo do concerto (com instrumentos originais aqui):
Mas quem gosta de resumos? Ouça o Concerto todo. É lindo. Eu garanto. 
E então lá vai o começo da íntegra na versão mais lenta e solene que encontrei até agora no 'tube':
http://www.youtube.com/watch?v=enkfWuV51Ds&feature=related

Johann Sebastian Bach – “Jesus bleibet meine Freude” [lit. "Jesus Segue a Ser Meu Júbilo" ou mais conhecida em português como "Jesus, Alegria dos Homens"], BWV 147 (em três versões - a terceira sendo a do grande pianista romeno Dinu Lipatti) – Do Livro 2 de O Cravo Bem Temperado, o Prelúdio 3 em Dó SustenidoBWV 872 (Glenn Gould ao piano):

A coisas cristalinas não se deve obstar comentários.

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sábado, 19 de novembro de 2011

a gente pensa, a gente passa, a gente escreve uma novela

Paul Klee, O Vento Sul no Jardim de Marc, 1915


Paul Klee, Flores ao Vento [Blumen im Wind], 1922



Canção

no dia de sol
manhã e trópico
um vai e vem de ondas
ló, o vento passa em revista

a gente pensa, a gente passa
a gente escreve uma novela
de agente, belisca isca
toma cachaça

sente de onde vem 
o vento, para poder
brigar com ele
se ele espalha insecticida

abre a revista, abre a revolta
bate a raquete
joga de volta para bem longe
sem deixar pista

e, se todos os poemas
fossem de amor
a poesia não seria mais
que uma doutrina
fascista


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Rompendo com a paisagem da pasmaceira

[s/i/c]

De Fronteiras e Tarefas

O escritor mais lúcido confere à sua escrita uma liminaridade. Ele caminha entre dois desertos: de um lado, os escritores encerrados apenas nas referências da província – perfeitamente incapazes de enganchá-las a nada mais, de relacioná-las a outras ideias mais amplas; do outro, os que pensam que é possível safar-se da origem pela esgrima de um cosmético cosmopolitismo de meia-tigela – inábeis também para coser, mas em movimento reverso aos primeiros.¹ Nesse cenário de estéril imobilismo. Nessa paisagem da pasmaceira, se move o escritor-exceção, que nem quer abdicar do saber local, tampouco achar que esse saber esgota TUDO. Ele move-se por um ouvido, um coração e sua própria capacidade de fabular. È difícil mover-se nessa liminaridade. Mas há os que sabem tramá-la a contento. E escolher no local as locações universais de seu cinema.

E quando se volta o olhar para os lados, é um prazer perceber que há um senso de companhia quando se lê Virna Teixeira (inclusive a lufada de ar que são suas traduções), Carlos Augusto Lima (que é também um editor discreto), Diego Vinhas (não menos por sua preocupação de arejado antologismo), Rodrigo Marques (que recentemente lançou O Livro de Marta) e Eduardo Jorge Oliveira (o que mais se aplica à sondagem das possibilidades de  fissura  e superposição de linguagens, suportes) entre outros. Há neles esse senso de partir da mesma sesmaria do coração para recompartir, lá, mais adiante, diferentes formas, somas e andamentos. 

Uma companhia hábil.


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¹E nessa alameda, os dois tipos se merecem em suas respectivas cegueiras. Embora o "cosmético de botequim" seja ainda mais torpe que o "escritor da terra" ou pequeno cronista --- porque ao mesmo tempo mais fátuo, vazio. O pequeno cronista ao menos toma para si uma tarefa que outros não farão de fora para dentro, a não ser lastrados em clichês hediondos.


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Uma cadeia de alívios

Jeff Wall, Flooded Grave, 2006


Lembre-se de Morrer

Quando ela perdeu o favor dele fazia novembro. O sol começava a escaldar no chapisco dos muros. Cair em placa fervente. Tão avassalador e indiferente que, se um tênis fabricado em zonas pouco mais temperadas fosse posto para secar ao sol, viraria pudim. Debaixo do oitizeiro, o vendedor de chegadinho retirava o suor do rosto com a ponta da camisa. Depois retirava a camisa, e olhava com desaprovação os circunstantes imaginários. As chuvas do caju já se tinham ido. E o calor mormacento de fim de ano cercava a cidade com fúrias de cavalaria cossaca. E a convertia em terra de ninguém e febre. O comércio animava-se com as antecipações de décimo terceiro. E os campeonatos nacionais conheciam rodadas periclitantes nas duas pontas da tabela – os times locais a lutar, salvo exceção, para não cair uma divisão a mais – não importa qual. E, embora o estado deles não aderisse ao horário de verão, na prática, o horário de verão se estabelecia a eles, pois a programação da principal rede de TV antecipava-se em uma hora afetando a rotina de milhões.
Tinham combinado, por mensagens de celular, de se encontrar às nove próximo a um terminal de ônibus, no médio subúrbio, perto de uma lagoa. Ela não havia checado ao certo o mapa virtual. Mas não seria tão difícil assim furar um caminho para eles através da cidade.
Para começar, ela havia sugerido que fossem no mesmo carro. Ele declinou polidamente, alegando um compromisso na sequência. Pretextando a agilidade de seguir no mundo, ao invés de tornar à casa para tomar o carro, etc. Ela insistiu um pouco. Mesmo que nada. Ele podia ser voluntarioso como uma mula. Até a margem da rispidez. E assim, na hora acordada, viram-se um diante do outro pelos respectivos vidros foscos. Ou antes disso, pelos retrovisores. E depois disso pelos óculos escuros. Ela desceu e caminhou até o carro dele, estacionado à margem do tráfego que serpeava por uma avenida estreita e repleta.
Nenhum dos dois conhecia bem por onde as rodas de seus carros estavam a girar. Mas ela, auto-indulgente – como de hábito – apenas disse:
Deixe comigo, a gente encontra fácil.
Quase duas horas desse deixe comigo e de idas e vindas e até uma parada para uma água de coco e um café e cigarros depois, chegaram ao cemitério a tempo de ele dizer com bagatelas de mágoa na voz:
Você devia ter me situado melhor. Passo em frente a esse cemitério quase todo dia quando vou deixar minha filha na escola.
Em passos lentos e um silêncio por pouco, seguiram até os escritórios.
O administrador do cemitério se encontrava em Brasília, numa viagem de negócios. Mas sua secretária os recebeu e lhes foi inteirando do necessário a trazer para que o campo santo, um empreendimento privado, pudesse abrir suas portas para as câmeras deles no papel de cobiçada locação:
O filme é para TV, não é assim? – perguntou a secretária.
É sim, respondeu ele. Vocês vão ter bastante visibilidade.
Qual o canal?
O quinze.
Ah, pensei que fosse o 10 – a secretária deixou escapar, em ponta de estoque, o saldo de sua decepção, ao constatar que o filme não seria exibido na retransmissora da Globo.
Mas o horário, dez e meia da noite é uma maravilha, público adulto, anunciantes quentes, a firma de vocês vai sentir o resultado depois dessa janela – ele completou.
A secretária limitou-se a olhá-los com um ar de: “Deus te ouça, estamos precisados mesmo dessa publicidade, porque os negócios não vão bem; e se tem morrido menos no estio deste ano, com crediários ao gosto do freguês e bolsas família para todos lados”. O problema, aqui, é que tanta força pôs em disfarçar a situação que esse olhar “deusteouçado” assomou ainda mais revelador.
Ela, usualmente expansiva na intimidade, contemplava o medonho arranjo floral nos cabelos da secretária, junto com o inevitável excesso de maquiagem, e não dizia nada. Também por receio de interrompê-lo. Ou, por uma gafe – não de todo inpremeditada pelo inconsciente – botar tudo a perder ao torpedear os próprios argumentos dele. Afinal, era ele quem produzia o filme e editava. Ela era apenas a assistente de direção.
Polvilhada de burocracias sem fim de inúteis seguia o meio de campo entre a produção do filme e a administração do cemitério. Prazos exauriam-se. Eram descumpridas rotinas. Maus tratos à equipe de gravação por parte dos seguranças do campo santo foram as cerejas no bolo. Ânimos exaltavam-se a ponto de cada partido chamar o outro grupo de “eles”. Ou entrevê-los com bile e sedes de fígado.
Nesse meio-ínterim, ela morreu. De repente, mas, como sucede ser, não menos definitivamente: o que desfechou não só o affair tenso e sinuoso com ele, como também o impasse entre o pessoal do filme e o pessoal do cemitério, propondo uma trégua que só um evento assim.
Não é proveitoso estender-se a propósito da aventura que tiveram. Não foi nem mais nem menos arrebatadora e mórbida que outras aventuras do gênero, em que diferença de idade e interesses investidos por variados e intercambiáveis jogos de poder recombinam-se com a doce clandestinidade do adultério para fazerem-se ainda mais protagonistas.
Para o modus operandi deles, isso se refletia, acima de tudo, numa troca de e-mails por meio da qual cada um fazia a vida do outro um pouco mais miserável. E, em especial, ele fodia com a dela. Pois era ela a mais velha, estabelecida, respeitável, o elo vulnerável, enfim.
No dia do enterro dela, por sinal, ele não sentiu senão uma cadeia de alívios. Algo incontrolável. Em nome da autocompostura, tentou atenuá-los lembrando de como haviam se conhecido, na academia de tênis, certa tarde. Mas logo algo nele não se conteve: “ela era tão ruim que se jogasse sozinha empatava”. E como mesmo aquele idílio inicial fora consumido pelo azedume posterior das inevitáveis conflagrações, dela lhe ocorreu em resumo uma frase avulsa e distinta, posta por crista de galo em uma das rinhas deles pelos meandros da rede:
Lembre-se de morrer!

* * *

Custa pouco ser dono do vento: Jozséf

[s/i/c]


Eis aí o Saldo Final


Confiei em mim desde o primeiro momento.
Custa muito pouco ser dono do vento.

E à besta não lhe é mais custosa
a vida, até que a lançam à fossa.

Nasci, amei, fui longe, fiz o resto.
Com medo, às vezes, mantive-me no posto.

Paguei sempre as dívidas contraídas
e agradeci, com as mãos estendidas.

Se fingida mulher aqui e além me quis,
amei-a, para que pudesse ser feliz.

Fiz cordas, varri, dei-me ao vinho
e entre os espertos fingi-me cretino.

Vendi brinquedos, pão e poesia,
jornais e livros: o que se vendia.

Não morrerei enforcado em fácil trama
ou em grande batalha, mas na cama.

Vivi (já eis aí o saldo final):
Muitos outros morreram deste mal.


Attila József

Tradução de João Luís Barreto Guimarães



[fragmento (final) do poema "Consciência"]

[...]


XII.

Moro ao lado dos trilhos. No ir
e vir dos trens vejo e revejo
janelas acesas vazando-se a zunir
no breu pegajoso, por lampejo.
E logo em noite de infinito devir
passam os dias luminosos e eu me vejo
Na luz de cada cabine a prosseguir
em que apoio os cotovelos e bocejo.


Attila József

Tradução nossa [a partir de versões em italiano e inglês]


NOTA - Será que há uma índole, um caráter nacional ainda mais carregado de melancolia que o húngaro?¹ Difícil. Attila József teve duas obsessões: a mãe e os trens. 

¹Até o Hino da Hungria é lindo, solene e devastadoramente grave. Um hino em todos os seus aspectos e no sentido literalmente religioso. E não só por sua estrutura musical, como desvela o primeiro verso da letra: Isten, áldd meg a magyart” (“Ah, meu Deus, abençoai os húngaros”).  É mais bonito e absorvente que o alemão  (que é de Haydn e era também Hino do Império Austro-Húngaro -- pois composto originalmente para a Casa de Habsburgo). Por outra via, "A Magyar Himnusz" parece pinçado de um oratório de Bach. [Para ouvi-lo, por favor, clique AQUI (ou AQUI para a versão só instrumental)]. Com um hino desses, compadre, é mais fácil deixar de ser pacifista, e escrever seja o que for. Tomar parte numa cruzada. Ou morrer pela pátria. Ou compor uma elegia, um épico. Ou combater os otomanos. Só por um hino desses saímos no lucro com a fração do Império. De outro modo, as riquezas da literatura húngara levaram Edmund Wilson a aprender o húngaro já na maturidade, irrequieto que era. E curioso, no melhor sentido. No sentido poundiano. E, para além, lembrar que Sándor Márai escreveu um romance, Veredicto em Canudos (1970) [editado por estas bandas pela Companhia das Letras], baseado em Os Sertões de Euclydes da Cunha. Ou ainda lembrar que Joyce chamava Budapeste de "Judapeste", pelo fato de a cidade -- estamos antes da Shoah -- concentrar uma das maiores comunidades judaicas da Europa. Um dos mais destacados poetas brasileiros da geração pós-concretismo, aliás, Nelson Ascher, é de ascendência judia-húngara. Ascher é também um fino tradutor de poesia.


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sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Que a pedra dispare brotos de pedra: Lepik

[s/i/c]


Praga

Se destruíres nosso povo
Que a chuva vire pedra sobre teus campos.
Que a pedra dispare brotos de pedra.
Que pão de pedra esteja em tua mesa.
Que pétreo seja o chão em que pisas.
Que pétreo seja teu céu acima.
Que o mar vire pedra.
Vire pedra como teu coração é de pedra
Contra nossa terra e nosso povo.

Kalju Lepik

[tradução feita a partir de uma versão para o inglês de Ivar Ivask]


Nota -- Kalju Lepik (1920-1999), poeta da Estônia. Há essa antologia de poetas do Leste Europeu editada por Emery George. A gente lê e fica pasmo com vários nomes. Como Bobrowski. Como Attila József, que é apenas referido por outros poetas no livro. E quando se vai atrás dele, é daquela linhagem de loucos visionários luminescentes: Lorca, Maiakóvski, Pessoa, Dylan Thomas, Hart Crane...


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Uma lista líquida

[s/i/c]


Águas Fortes


Se digo borrasca,

como farelos de cortiça

você passa sobre vinagre.

Se digo intempérie,

você decalca-se da moça do tempo,

diz a máxima, não dá a mínima.

Se digo tempestade,

você veste mais o perfume de Ariel

que o de Miranda,

mas não se  vá em vão.

Se digo tormenta,

você não sai nada bem na foto de família

(mas, quem sai?).

Se digo temporal,

veja você ao certo 

o que é possível fazer,

para que não se acabe fazendo

por linhas tortas.

Se digo dilúvio,

em que arco-íris você vai estar

depois, depois das chuvas?


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quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Componentes avariados

Tracey Moffat, Birth Certificate, 1962


O Recall

Atenção! mães que deram à luz no último dia 4 de outubro: a Maternidade São Judas avisa que está promovendo um recall visto que há defeitos de fabricação mínimos – mas com consequências disfuncionais graves no longo prazo –  nos bebês do lote Nº 356WX-C. O hospital arca com todas as despesas de substituição dos componentes avariados e dos respectivos enxovais – em caso de troca (simples ou consuetudinária) de sexo. Ou, caso seja do desejo das pacientes, na troca total de recém-nascidos do lote por bebês novinhos em folha.


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Faina de horas ordinariamente extras

Jeny Holzer, Truisms, 1994


4 Truísmos e Uma Ociosidade Não Criativa


Um assalto à mão não tão desarmada assim.

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E o árbitro expulsa todo mundo. Até a torcida que estava assistindo o jogo sentada no sofá da sala.

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Uma faina de horas ordinariamente extras.

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Ah, como valia o meu verde!


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Em terra de rei, quem tem olho cega.
  
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Em que ponto começa o longe?

Rivane Neuenschwander, A volta do Zé Carioca Nº4, 2004



Lua, Mangue

Quando vejo uma lua, um mangue
O pensamento segue para longe
A perguntar do ponto onde longe começa
A lembrança de algo que se quer
Para sempre: mãe, pai, filhos, irmãos,
Um amor, os amigos, certas ruas
Que por nós passaram veios de prazo

E é prudente não passar do passado


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