quinta-feira, 5 de abril de 2012

Não basta ver para ver, é necessário olhar para o que se vê: Vieira



Sabeis por que choram os olhos? Porque veem.
[Sermão das Lágrimas de São Pedro]


A cegueira literal, mais benigna que outras cegueiras compostas:
Os cegos que nós havemos de ver, sendo as suas cegueiras muitas, não as padecem, antes as gozam e amam: delas vivem, delas se alimentam, por elas morrem e com elas. 


[Tudo indica que o Amor é uma forma totalmente distinta de tudo que pensamos e percebemos e sentimos e expressamos que ele é. Mas também a única forma possível. A única viável. A única visível. A única amável. É o que nos informa, como poucos, este Sermão da Quinta-feira da Quaresma, mais conhecido como Sermão Sobre a Cegueira:]

A pior cegueira, a dos líderes:
A cegueira que cega cerrando os olhos não é a maior cegueira; a que cega deixando os olhos abertos, essa é a mais cega de todas. E tal era a dos escribas e fariseus. Homens com olhos abertos, e cegos. Com olhos abertos, porque como letrados liam as Escrituras e entendiam os profetas; e cegos, porque vendo cumpridas as profecias, não viam nem conheciam o profetizado.
[…]
Se lançarmos os olhos por todo o mundo, acharemos que todo, ou quase todo, é habitado de gente cega. O gentio cego, o judeu cego, o herege cego, e o católico, que não devera ser, também cego. Mas de todos estes cegos, quais vos parece que são os mais cegos? Não há dúvida que nós, os católicos. Porque os outros são cegos com olhos fechados, nós com os olhos abertos. 

Das três espécies de cegueira:
Esta mesma cegueira de olhos abertos divide-se em três espécies de cegueira […] A primeira é de cegos que veem e não veem juntamente; a segunda, de cegos que veem uma coisa por outra; a terceira, de cegos que vendo as demais, só a sua cegueira não veem.

Primeira espécie de cegueira: desatenção
Quem há que olhe senão para ver? E quem há que veja senão olhando? Por que diz logo o profeta, como se nos inculcara um documento particular: Intuemini ad videndum: Olhai para ver? Porque assim como há muitos que olham para cegar, que são os que olham sem tento, assim há muitos que veem sem olhar, porque veem sem atenção. Não basta ver para ver; é necessário olhar para o que se vê. Não vemos as coisas que vemos, porque não olhamos para elas. Vemo-las sem advertência e sem atenção, e a mesma desatenção é a cegueira da vista. Divertem-nas a atenção os pensamentos, suspendem-nos a atenção os cuidados, prendem-nos a atenção os desejos, roubam-nos a atenção os afetos, e por isto, vendo a vaidade do mundo, seguimos após ela, como se fora muito sólida; vendo o engano da esperança, confiamos nela, como se fora muito certa; vendo a fragilidade da vida, fundamos sobre ela castelos, como se fora muito firme; vendo a inconstância da fortuna, seguimos suas promessas, como se foram muito seguras; vendo a mentira de todas as coisas humanas, cremos nelas, como se foram muito verdadeiras.


[Padre Antônio Vieira]

*   *   *

É preciso ler isto de três formas: da forma doutrinária – como se lê, ao exemplo, o texto de um monge budista. Como revelação. Isto é, como poesia ou forma ancilar de poesia. Ou melhor, algo para entender mais com o coração que com a lógica - embora se componha de aparentes axiomas.

E, por fim - profundo mergulho na sinergia - é possível ler isto como a última teoria lançada sobre audiovisual. Quase 400 anos e mais impactante que pós-estruturas. Especialmente no que refere à desatenção. Mas a gente prefere fazer olhos de mercador. E vendá-los no exato momento em que nos propomos a enxergar com eles.
*
Figurino pouco atraente (talvez outras saias?). Presença sem muito carisma aparente. E a música inscrita nas esferas celestes:



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