segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Turbulência, anti-distônicos e amor como espectro: uma biografia de David Foster Wallace




Every Love Story Is a Ghost Story: A Life of David Foster Wallace, por D.T. Max, Granta, 352 ps. - (lançada em setembro passado)

Toda História de Amor é uma História de Fantasmas é o título da primeira biografia sobre o mais recente herói literário dos Estados Unidos: David Foster Wallace (1962-2008). E Foster Wallace é conhecido sobretudo como o autor de Infinite Jest [Pilhéria Infinita]. O romance é um calhamaço de mais de mil páginas passado em um distópico país norte-americano, que engloba também o Canadá e o México, além dos Estados Unidos, num futuro sombrio e meio pantagruélico. A unidade política leva a sigla galhofeira de O.N.A.N., numa clara referência satírica de endereço certo: a ONU, o Nafta, os projetos pós-modernos de blocos de países, tais como a União Europeia, que ora balança como um castelo de cartas. (E dentro da qual ex-potências coloniais ameaçam liquefazer-se antes mesmo de receberem o resgate econômico e verem sua soberania evaporar em favor de um Banco Central Europeu comandado com mão de ferro e nervos de aço pelos obstinados alemães. E é preciso recordar o quanto a figura de Hitler era uma das obsessões (e dos pavores) do autor da Jest).
Mas a União Europeia não é o alvo direto do veio satírico de Infinite Jest, senão os próprios Estados Unidos, pois se há uma vontade de profecia em David Foster Wallace, ela se cumpre mais do que nunca nesse seu romance épico, extenso, de altíssima voltagem, em que referências eruditas e citações pop, deformadas, amarradas, amalgamadas e comprometidas pelo intenso uso paródico que ele faz das notas de rodapé, pululam por toda parte, debatem-se e chocam-se umas contras as outras. E, assim, sem propriamente filiar-se a um partido de modo ostensivo (havia votado nos republicanos e em Reagan quando jovem para depois tornar-se um simpatizante democrata), Foster Wallace engaja-se numa discussão do projeto de um país cada vez mais encalacrado em suas auto-armadilhas, debilidades, filistinismos e aporias. 
Através de sua prosa se divisa melhor o quanto essas auto-emboscadas estão presentes na vida do estadunidense comum. Este dá de um tudo para entreter-se. Vive mesmo em função disso. Cavando espaços para isso. Entreter-se é sua divisa e ética. E, ao mesmo tempo, qualquer forma de sacrifício em prol de um ideal coletivo é vista como algo a ser evitado ou esquecido. E é comovente como esse sentimento de que a noção de sacrifício foi, digamos, sacrificada em prol de um ética da diversão, aproxima de algum modo Foster Wallace de uma autora tão distante dele, sob vários e densos circunstâncias e prismas, quanto Simone Weil.
O resultado dessa ética do entretenimento para os americanos, no entanto, passava em termos concretos por uma média de seis horas diárias diante da TV - seguindo pesquisas que seguramente devem remontar a antes da internet. A cifra impressionava a Foster Wallace. E o angustiava. Ele próprio um telespectador contumaz, chegou a citá-la e glosá-la em um ensaio sobre a centralidade da televisão no cotidiano dos americanos: E Unibus Pluram
Aliás, a disposição de Foster Wallace para escrever ensaios sobre temas um tanto kitsches ou do momento - como um festival de degustação da lagosta ou um perfil bio-psicológico de John McCainn, herói da guerra da Coréia e candidato republicano à presidência em 2008 – granjearam-lhe larga e justificada popularidade. Mas já antes disso, à época da escolha de sua pós-graduação – os impulsos falavam alto em sua vida – cogitou não só estudar política como entrar para a vida pública. Disso foi dissuadido por um colega de faculdade, que o fez ver: nenhum candidato que houvesse passado por casas de repouso, rehabs ou hospitais psiquiátricos, após crises de pânico e consumo de medicação crônica para surtos paranóicos, seria levado a sério por eleitores ou poupado pelos adversários. Do contrário, alvo fácil, teto de vidro seria, em previsíveis debates.
David Foster Wallace, o garoto brilhante e tímido do Meio-Oeste, nasceu e cresceu nos campi de universidade, das quais a mãe e o pai eram professores. E dos quais nunca que conseguiu sair completamente. Sua vida pareceu mesmo debater-se entre o campus e o mundo lá fora. A solidez intelectual do campus, a generosidade de uma vida contemplativa e analítica, profundamente auto-reflexiva, mas também certa pavorosa falta de vida e ausência de mundo e senso comum, ao fim de tudo; e o mundo lá fora, colorido, vibrante, mas excessivamente votado ao consumo, à praticidade, à sordidez, à venalidade, etc.
O pai, professor de filosofia, costumava ler-lhe o Moby-Dick para fazê-lo dormir, na infância. Algo sugestivo para quem, a exemplo de Melville, lançar-se-ia à escrita de um épico anos depois. A mãe, professora de inglês, propunha constantes desafios e charadas de análise sintática, como forma de brincadeira e treino. Costumava pigarrear quando ele ou a irmã cometia algum deslize de inglês. Dela ele derivou a expressão “gramático militante”, que emprega em mais de uma passagem na sua ficção. E ele próprio dizia cuidar da gramática com um zelo nazista. 
Foster Wallace foi tenista na juventude, por incapacidade de socializar o bastante para compor nos times de futebol americano ou basquete. Mas, de outro modo, era um garoto popular na sala de aula. E é possível que haja sido a solidão do tenista – tão singularmente próxima da do autor na sua escrita – o que tenha conquistado o coração desse escritor. 
E não qualquer escritor, mas um singularmente votado a ser uma espécie de porta-voz geracional. Sua figura, de bandana, jeans e tênis, com uma expressão ao mesmo tempo concentrada e, algo, exaurida e um pouco ausente, ministrando cursos de redação criativa em termos esporádicos, por faculdades em diferentes tempos e pontos do país, como um peregrino, também contaram muito para essa espécie de canonização. E canonização que se tem produzido sobretudo a partir do stablishment de Nova York e da Nova Inglaterra, com suas revistas, suplementos e respeitáveis ciclos de palestra.
Foster Wallace foi um desses raros casos de escritores que lograram a proeza de escrever uma prosa de vanguarda, louvada nos campi universitários, mas ao mesmo tempo aceita pela crítica mais estabelecida e “comercial” de Nova York. Quer dizer, viver no campus e ser sancionado pela mídia. Ou na boa sacada de um crítico: “somehow he managed at the same time to be a nerd and a dude”. Ele foi, por igual, amigo e/ou correspondente de alguns dentre os mais renomados escritores de sua geração. Caso de Jonathan Franzen, que também é do Meio-Oeste, e o incentivou e animou durante uma crise de auto-confiança.
Há um bom sumário do itinerário de Foster Wallace como escritor nesta biografia. Embora útil só para iniciantes. Ele começou adotando um estilo distanciado, paródico, dado à ironia, expressamente decalcado de uma receita pós-modernista. A mesma que havia se estabelecido e estabilizado com razoável respeitabilidade ao fim dos 60. E, no caso, uma que soasse como imitação do romance The Crying of Lot 49, de Thomas Pynchon, livro que representou uma espécie de a.C. e d.C. na prosa de Foster Wallace. Foi também modelo de seu primeiro romance: The Broom of the System [A Vassoura do Sistema, 1987]. 
Porém, aos poucos, à medida em que foi entendendo que a sinceridade cobra um peso decisivo no campo do escrever, Wallace foi também progressivamente distanciando-se dessa literatura paródica, da ironia e do efeito, mais decalcada de outra literatura que da vida - excessivamente ocupada consigo mesma e com metateorias - em prol de algo mais pé-no-chão. Ou seja, mais dude. (Ainda que pé-no-chão ao estilo David Foster Wallace. Isto é, ainda um bocado nerd e com agudas exigências formativas e intelectuais.) E talvez seja precisamente por esse inesperado, sutil e, não raro, angustiado (e deslavadamente bem-humorado) equilíbrio entre nerdice e dudice que ele, então, haja conquistado de vez seu eleitorado. 
Ao mesmo tempo em que era versado em Wittgenstein e Derrida, Foster Wallace nunca deixou de se interessar genuinamente por seriados da TV, soap operas, revistas em quadrinho, desenhos animados, tênis, música pop, blockbusters, talk shows, filmes e livros de ficção científica e toda uma miríade de quinquilharias que conforma um universo menos highbrow, entanto rente à convivialidade de uma vasta maioria que não é propriamente leitora do Tractatus ou da  Gramatologia. E, evidente, seu ponto de convergência é algo eminentemente moral. 
Em Foster Wallace dois aspectos - talvez indissociáveis - ressaltam: i. sua americanidade e ii. seu zelo moral. E ambos aspectos se interlaçam, se aproximarmos sua pulsão moral de algo análogo àquela dos pais fundadores da nação americana, e que seguiu no veio de um Emerson, de um Thoreau, de um Melville, de um Frost, de um Carlos Williams, de uma Gertrude Stein, de um Hemingway. Usualmente sua prosa é rotulada de 'realismo histérico'. Ou ainda de 'metamodernismo'. Mas isso seria apenas conceder aos rótulos.
Ele era, por igual, um sujeito com problemas de várias ordens: sociabilidade, relação com as mulheres, auto-imagem, depressão, adicção a psicotrópicos e drogas, etc. Lia e assistia televisão compulsivamente. E nutria hábitos extravagantes como se alimentar exclusivamente de brownies deschocolatados em certo momento da vida. Atravessava etapas de solidão absoluta. Entregava-se a paixões devastadoras. Conheceu surtos que o levaram a internamentos em solitárias. Abusou da bebida durante certo tempo. E tomou muito a sério o esforço de deixá-la de lado. Num determinado momento, costumava pintar seus quartos de preto e nutrir uma atitude visceralmente agressiva e satírica diante da religião. Ainda que, depois, já na maturidade, tenha tentado a sério uma conversão ao catolicismo, que acabou desencorajada pelo próprio padre com quem dialogava à época, e que era mentor de sua companheira à ocasião. O veredicto do reverendo, aliás, não é dos mais encorajadores: Wallace ainda tinha demasiadas questões para um crente.
As mulheres em sua vida foram axiais e podiam levá-lo a um desespero abissal. Certa vez, tentou comprar uma arma para matar o marido de uma delas. E por quê? Porque era predispostamente monogâmico. E, logo, assumiu o papel do traído na relação, como usa ser em casos e triângulos assim. A monogamia, no entanto, não valeu para certo trecho inicial de sua trajetória de escritor - aliás muito bem sucedida. À época, caiu na buraqueira. E engatou casos em sequência. Especialmente com as acólitas e groupies que iam às suas palestras pelo país afora. Mas não só. Chegou a admitir que no pico da coisa, fazia sexo com desconhecidas que encontrava em festinhas de embalo. E, ao menos em uma ocasião, com uma menor de idade. 
Mais adiante, assumiu relações um pouco menos instáveis, porém não menos turbulentas. Durante uma acalorada discussão com uma namorada, arremessou uma mesa sobre ela. Numa outra, esmurrou uma geladeira e quebrou a própria mão: episódio que transpôs, de modo quase direto para a ficção. 
Somando tudo, não parece lá algo muito heróico ou edificante. Mas a prosa de Foster Wallace talvez seduza justamente por isso: seu heroísmo (aliás, perfeitamente anti-heróico) vem primeiro por não tentar camuflar certos episódios onde a imagem do homem contemporâneo - que não se dissocia por inteiro de uma auto-imagem - não assoma lá muito lisonjeira. Ou seja, por um sinceridade que confunde-se com auto-derrisão, mas que ele não negocia em nome da usual prática de se pôr panos mornos. 
E, na sequência - e talvez ainda mais importante - por tentar não abdicar do pensamento quando há especialistas que são pagos para pensar por nós nas mais diversas áreas da ação e do conhecimento humanos. Pensamentos elevados. Às vezes postos em linguagem sublime. Mas que acabam distanciando-se miseravelmente do pé no chão, do batente, do dia a dia, do senso comum, do terra à terra, da motocicleta, do ônibus, do assovio, do ter de trabalhar oito horas repetindo praticamente o mesmo procedimento, da televisão, etc. E acabam distanciando-se justo por sua especialidade pós-graduada. Por seu grau de descolamento da realidade. (Ou pelo fato de serem produzidos nesse mundo asséptico e especioso do campus universitário, do qual ele nunca conseguiu sair inteiramente). E isso não se dá também no campo da literatura?
E não é fácil escrever uma biografia assim, quando tantos esperam por ela em ansiosa expectativa. E esperam mais ou menos para consagrar o biografado. Há uma inequívoca tendência nesse sentido: a de apontar Foster Wallace como o primeiro grande herói literário da era cibernética. O nerd com um grande coração. Já se fala em uma “geração David Foster Wallace”, como numa recente matéria da Newsweek. A ocasião e o ladrão não perdem tempo neste mundo de marketings.
No plano estritamente biográfico, deram-se tentativas de suicídio e terapias de ordem diversa, ao longo da vida. E que chegaram a incluir eletrochoques, dos quais ele se queixava serem particularmente dolorosos. A suspensão, por iniciativa própria, da medicação crônica contra a depressão e as crises de pânico levou-o, no espaço de um ano, ao suicídio - anunciado e antecipado por um considerável número de vestígios e tentativas anteriores. Tinha 46 anos.
Ao que parece, sua trajetória no meio de tanta turbulência passou de algum cinismo e deboche juvenis para certa atitude de comprometimento e tentativas de atenção e solidariedade na vida adulta. Quando morreu, encontrava-se casado (sua esposa tinha um filho de uma relação anterior), e prosseguia trabalhando como professor, e escrevendo um livro. Sua atitude diante da vida era de uma maior responsabilidade, comprometimento e preocupação com as pessoas em torno. Era notável a atenção que, por exemplo, dispensava a seus alunos. E isso apesar de descrer, en bloc, na perspectiva de ensinar a alguém como escrever criativamente.
O livro em que trabalhava, um romance, deixado inconcluso, veio a ser publicado, ano passado, sob o título de The Pale King. Como soa ser nesses casos, a escritura de The Pale King era assombrada pelo titânico esforço anterior: o empreendido para gestar Infinite Jest. E, evidente, já fazia o autor sofrer exatamente pelo desafio: concluir algo de fôlego depois de Infinite Jest - que veio à tona em 1996. Nesse meio termo, ele havia publicado contos e artigos diversos em jornais e revistas - de resto, muito bem aceitos.
A biografia escrita por D.T. Max, jornalista da New Yorker, não tão exaustiva como usam ser biografias nos diascorrentes, escapa de ir por uma tentativa de hagiografia, como mais de uma resenha decreta. Embora haja um bocado de simpatia do autor por seu assunto.

Verdade, a figura do biografado se presta um tanto à tarefa.


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¹Há um excerto deste ensaio traduzido aqui em Afetivagem. Ou, por favor, clique no título do artigo no corpo do texto.

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