quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Um Breve Instante em Cassavetes




John Cassavetes, A Woman Under the Influence, 1974


Há esses breves instantes em que o cinema transforma-se em verdade. Sobre eles não é bom que recaiam análises. Especialmente eles não devem ser interpretados. Ou classificados. Eles pedem para ser fruídos, porque ampliam nossa capacidade de sentir. De enxergar/ouvir/tocar coisas. Perceber nosso tempo. Eles nos tornam mais humanos. Nos fazem chorar. Mas não do mesmo jeito que outros filmes nos fazem chorar. Eles nos fazem chorar sem lágrimas.
Um desses instantes de insofismável cinema se dá em Cassavetes. É um pequena sequência de A Woman Under the Influence (1974). Nela, Gena Rowlands no papel de Mabel Longhetti, uma dona de casa assaltada por surtos psicóticos, entra em parafuso após um telefonema. Do outro lado da linha, o marido acabara de quebrar um pacto, por conta de uma emergência no trabalho: voltar para casa ao fim do dia. Ainda que eles tivessem previamente marcado uma noite especial, e mandado as crianças para a casa dos avós. 
Mabel então sai de casa. Deambula por Los Angeles à noite em meio a carros que passam, faróis, luminosos, luzes borrados, belamente desfocados ao longo da avenida. Ela adentra um bar, mas não se agrada da ambiência. Ouve-se tacos e bolas de sinuca. E uma luz rajada cai sobre seu rosto na intensa penumbra, são reflexos de um globo de luz. Caminha mais um pouco, até entrar numa boate, e dar com um homem de meia-idade. Depois de alguma conversa e os drinques de praxe, o sujeito lhe dá uma carona até casa, e eles dormem juntos.
O trecho mais belo, no entanto, é esse breve instante de busca (ou fuga): ela perambulando na noite antes de chegar na boate, e há esse teminha profundamente lírico soando ao piano desde que desliga o telefone. E sabe que a noite talhou. Pode-se pressentir que o tema foi gravado com uma artesanalidade de registro doméstico. E que a voz soa com uma poesia e uma solidão extraordinárias, de quem canta com certo descuido. Como para entreter-se. Como quem assovia. Ou solfeja. Naqueles instantes em que a própria voz quer ser a companhia do dono. 
Desde sempre essa passagem encanta. Desde a primeira vez que a gente a percebe (vê/ouve, sem dissocio) no filme, junto com os ruídos ambiente. Ela responde pelo grau de detalhismo obsessivo de Cassavetes. A dificuldade que ele tinha de dar por encerrada a tarefa de edição. Desejo de ficar editando para sempre. E sempre achando que há algo a apurar. Esse apuramento respondendo pela cadeia sem fim da edição.
Dificilmente haverá outra mulher tão plena na imagem quanto Gena Rowlands em A Woman Under the Influence. Não uma menina, uma garota, uma adolescente, uma senhora, uma sereia, uma velha, uma modelo, uma big-brother, uma beldade, uma diva; mas uma mulher. É diferente. Ela assoma carregada de uma beleza contemporânea, meio louca. Essa beleza está em toda mulher. E em nenhuma mulher naquele grau. A não ser em momentos extremos. Em momentos de crise, riscos e urgência. Está prestes a explodir. O modo como se veste, movimenta, gesticula, dança, fala, vale por manifestos feministas. A gente sabe, a gente sente, mesmo à distância, o que causa a loucura daquela mulher. Sua desesperada ânsia de expressar-se sendo podada à cada vez que aflora, quer brotar à flor d'água.
Um filme subsequente de Cassavetes chama-se Love Streams. O fluxo dessas correntes, dessas nascentes comandam, no entanto, todos os filmes do diretor de Shadows. As tramas não caminham para um desfecho. Não se trata disso. O desenrolar é o ato potencial. E, assim a ação das personagens. Guarda um valor de momento que lhes retira qualquer possibilidade de tipo. Elas são humanas demasiado para ser tipos. E as coisas que lhes sucedem, em sua unicidade, inscrevem-se numa escala de vida. Como o trecho da caminhada de Mabel pelas esquinas da noite. Há uma caráter de ficção já meio embaralhado por certa inequívoca tendência documental. 
O trecho é um daqueles milagres em que som e imagem foram definitivamente fundidos. Ou em que os acordes ao piano e esse fio de voz que se ouve ao fundo guardam algo que se suplementa no padrão de estampas do vestido que Rowlands enverga, e que é tão anos 70 em sua extravagância floral. Ou nos gestos bruscos. Crispações. Ou no modo como a câmera recusa a acompanhar o movimento de ascensão da protagonista, e por algumas segundos capta apenas a exublerância floral desse vestido. Ou no desesperado passeio, em que Rowlands assoma cantarolando, sozinha e devastadoramente bela, no meio da noite. Uma certeza: o que ela cantarola só pode ser esse teminha de fundo.
Anos atrás, consultando livros - ainda não havia a conveniência e o hábito do Google, da Wikipédia - pensei que o tema houvesse sido composto pelo próprio Cassavetes, que era pianista amador. Um livro, aliás, confirmava equivocamente essa hipótese. Mas não é bem assim. O tema foi composto por Bo Harwood.
Harwood fez o som de alguns dos filmes de Cassavetes. E compôs trilhas para eles. O revelador é que Cassavetes em muitos casos prefira – como no caso em questão – a gravação doméstica, crua, caseira, sem muita elaboração ou firula posterior: efeitos, filtros, limpa ruídos, corretores de afinação, corta pês, câmaras de ecos ou cordas acrescidas num estúdio: os tão propalados overdubs, que fizeram a glória de discos como o Sargeant Peppers. E contra a vontade de Harwood, Cassavetes aplicava sobre a imagem as versões demo. Coisas gravadas um tanto de improviso em seu próprio escritório. Registros despretensiosos, feitos apenas com propósitos mnemônicos.
Pode-se entender por que Cassavetes queria assim. Há registros domésticos que não podem ser "melhorados", sequer em estúdios profissionais.  Como se portassem uma aura ou feitiço na gravação, que pedissem para ser expostos exatamente assim, com certo ar de esboço. 
Michel Chion nos fala da simultaneidade de som e imagem criando um terceiro elemento, que não é mais nem só som, nem só imagem. A esse fenômeno Chion chama de síncrese (mistura de simultaneidade - ou seja, de sincronia - e síntese). O que ele não diz é que há síncreses que de tão bem elaboradas nunca que nos deixam. Ou nos deixam na mão.
Outro dia revi esse trecho de a Woman Under The Influence. Tinha chegado até ele de novo por uma série de acasos que, claro, não são. E lembrei de como gosto dele. De seu heroísmo tenso e moderno. Da beleza dessa mulher ferida, caminhando sozinha, na noite, com sua mágoa e loucura. O tema, isolado, pode ser ouvido logo abaixo numa versão que é ligeiramente diversa da empregada no filme:



Ou a tal síncrese, como a chama Chion, pode ser vista/ouvida entre 10:21 e 12:00 – embora para melhor contexto, tomar de 7:50 até 13:2o - na postagem do filme, abaixo, em sua íntegra. Note que na versão do filme, a melodia em determinado momento é feita por meio de um vocal hesitante, meio improvisado e absolutamente encantador, escandido entre a simplicidade dos acordes. O'Neill escreveu uma peça chamada Long Day's Journey Into Night. Esse trechinho que passa quase despercebido num filme de Cassavetes, apesar de sua aparente brevidade, banalidade, de ser um instante, instantinho de nada, também o é: 



Bo Harwood tem um site, onde esses temas podem ser comprados, assim como alguma iformação adicional:
Mr. Harwood has a site where those tunes can be bought, along with some additional information:
http://boharwood.com/music.html


P.S. - Da colaboração entre Cassavetes e Harwood há igualmente uma cena em The Killing of a Chinese Bookie (1976), rematada por uma canção escrita a quatro mãos: "Rainy Fields of Frost and Magic". Na cena, o cafetão avalia a performance de uma jovem dançarina, sua protegida. A mocinha evolui seminua no palco ao som justamente da canção, que é uma balada lastimosa, ao modo dos 70: voz e piano. E, então, surge alguém que põe fim à audição. Todo o bem construído ritmo da cena impressiona, e, em especial, duas coisas: a) as diferentes âncoras de intensidade rítmica, fornecidas pela (i)canção, pelos (ii)ruídos ambiente, pela (iii)voz do cafetão e, em especial, pelos (iv.)passos da dançarina por vezes em suaves contratempos;  e b) o modo como o cafetão "vê" a chegada da intrusa no rosto da dançarina. E todos os três surgem tão avulsos, desgarrados uns dos outros que a cena repassa uma sensação de cada um por si, que só é atenuada pelo rompante ao final:



Um comentário:

  1. Fantástico o texto e a forma como você entende o desespero dessa mulher.
    ~CC~

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